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O legendário Cerrado de Campo Mourão, por Christopher Blum

Na época em que estava começando o curso de Engenharia Florestal na UFPR, calouro deslumbrado com cada descoberta sobre a diversidade e a beleza dos ecossistemas brasileiros, lembro-me claramente de ter ficado bastante impressionado quando, em determinada ocasião, ouvi falar nos Cerrados de Campo Mourão. Já tinha conhecimento de que esta fascinante tipologia vegetal campestre, típica do Brasil central, ocupava pequena porção do nordeste paranaense sendo a ocorrência mais austral desta tipologia no País. Isto para mim já era surpreendente, mas pensar em uma pequena mancha de Cerrado encravada em meio às pujantes florestas subtropicais que outrora dominavam a região de Campo Mourão era intrigante e ao mesmo muito estimulante.

Já havia tido a oportunidade de conhecer o Cerrado em viagens por Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso, e para mim era incrível que aqui no Paraná, a despeito do frio e de sua vocação essencialmente florestal, pudessem existir amostras desta elegante e aprazível fisionomia florística. Tais divagações fitogeográficas e o desejo de confirmar in loco a existência do Cerrado campo mourãoense povoaram minha mente ainda por longo tempo.

Anos depois, já formado, acabei passando por Campo Mourão e a primeira coisa que me veio à mente foi sair em busca da legendária mancha de Cerrado. E de fato encontrei-a, no bairro Jardim Nossa Senhora Aparecida, limitada a uma quadra dentro cidade. Foi gratificante conhecer aquele pedacinho de Cerrado de Campo Mourão - Cerrado mesmo!! Com pequi, lobeira, pau-santo, barbatimão e angico-cascudo! - Mas foi também angustiante ver a situação em que se encontrava aquele último remanescente desta tipologia na região, pouco mais de 1 hectare incrustado em plena área urbana, cercado por ruas, casas e postes de luz. E pensar que originalmente, segundo o ilustre Geógrafo Reinhard Maack, esta mancha de Cerrado cobria cerca de 10.200 hectares na região de Campo Mourão...

E não faz muito tempo que boa parte deste Cerrado ainda florescia sobre as colinas de Campo Mourão. Mas a cidade foi crescendo, e as lavouras de soja também... Quando as poucas pessoas que se importavam com o Cerrado perceberam o problema, já era quase tarde demais.

No ano de 1987 iniciou-se uma obstinada luta visando a conservação deste ameaçadíssimo ecossistema na região, envolvendo professores e alunos do Departamento de Geografia da FECILCAM - Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão. As manifestações em prol do Cerrado foram apoiadas pela comunidade estudantil em geral e finalmente culminaram, em 1993, com a aprovação do Decreto Municipal de criação da Estação Ecológica do Cerrado de Campo Mourão, garantindo ao menos a preservação daquele humilde remanescente de 1,4 hectare no Jardim Nossa Senhora Aparecida. Atualmente esta unidade de conservação municipal conta com uma infra-estrutura constituída de centro de visitantes e de laboratório de pesquisas, que abrange também um herbário onde são depositadas permanentemente amostras da vegetação local.

É confortante pensar que ao menos esta "quadra" de Cerrado está protegida, mas não é bem assim, esta manchinha isolada está condenada a um fim discreto, já que as plantas contidas neste compartimento de vegetação natural estão praticamente impossibilitadas de trocar pólen e manter sua variabilidade genética. Além disso, pelas suas dimensões extremamente diminutas e pelo seu isolamento em pleno meio urbano, este fragmento não tem capacidade de suporte para grande parte das espécies da fauna associada a ambientes de Cerrado, o que inviabiliza processos ecológicos importantes como a polinização e a dispersão de sementes. Para piorar a situação, parte da Estação Ecológica está sendo invadida por indivíduos de leucena (Leucaena leucocephala), uma espécie invasora agressiva conhecida por formar comunidades homogêneas, suprimindo a regeneração natural das espécies nativas.

Mas, mesmo assim, valeu a batalha para criar a Estação Ecológica do Cerrado de Campo Mourão. Esta unidade de conservação é mais um símbolo da luta de uma minoria esclarecida e bem intencionada frente à avassaladora - e quase invencível - horda de incautos que avança implementando o progresso às custas do sangue e da seiva das comunidades naturais.

E, tratando deste implacável avanço do homem, é válido ressaltar que outro fragmento de Cerrado ainda resiste em Campo Mourão. Ao contrário do que normalmente é veiculado - nas poucas vezes em que se fala no quase etéreo Cerrado de Campo Mourão... - o fragmento protegido pela Estação Ecológica Municipal não é o único remanescente desta tipologia na região. O outro remanescente apresenta dimensões consideráveis e situa-se na margem esquerda da rodovia PR 317 que liga Campo Mourão à Maringá, logo na saída da cidade. Este fragmento ainda permanece relativamente conservado, a despeito da depredação sofrida e de sua utilização como depósito de entulhos e outros rejeitos. No entanto, a sua existência tem pouquíssimas garantias e, se alguma medida emergencial não for tomada, o seu destino breve será triste, sendo provavelmente retalhado em lotes. A suave encosta que hoje abriga um bonito campo repleto de árvores cascudas e retorcidas, além de graciosas palmeiras anãs e ervas floridas de diversas espécies, poderá amanhã ser convertida em calçadas, ruas, casas e, na melhor das hipóteses, jardins urbanos repletos de flores importadas...

Conheça o Cerrado de Campo Mourão

Para que quiser conhecer a Estação Ecológica do Cerrado de Campo Mourão, experiência extremamente recomendável, apresentam-se abaixo, as informações necessárias:

As visitas podem ser individuais ou em grupos de no máximo 30 pessoas, com duração aproximada de 1 hora. Para grupos faz-se necessário marcar previamente pelo telefone (0xx44) 525-3621, falar com Lucimára ou Meri ou dirigir-se à própria Estação, localizada próxima ao Batalhão da Polícia Militar, na Rua Dr. Ari G. Assunção, 317 - Jd. Nossa Senhora Aparecida. O atendimento é realizado nas segundas e terças feiras das 8:00 às 11:30 e nas quintas e sextas feiras, das 8:00 às 11:30 e das 13:30 às 17:00.

Maiores informações:
http://www.fecilcam.br/cerrado/cerrado.htm
cerrado.ecologia@bol.com.br



Dr. Radut | story